sexta-feira, 31 de agosto de 2007

A vida é curta para ser pequena

Chacal.


No episódio de hoje...

Via um filme e se lembrou do sorriso dele. Não conseguiu mais prestar atenção. Ele parece um ímã que gruda e cola e costura tudo junto, simultaneamente, para nunca mais largar. Ela só acredita que é amor se doer e dói, viu? Dói.

A vida dela é uma clandestinidade sem tamanho e ela sabe que não é fácil vender livro de autor desconhecido. Ela se apóia em alguma parte de sua vida pra tentar justificar a merda que é a outra parte.

Eu te digo que ela furaria o céu se não fosse tão pequena. E digo mais: ela seria feliz para sempre.

domingo, 26 de agosto de 2007

Doutor! Quero um transplante de corpo! Como assim? Assim! Isso mesmo! Quero ser outra pessoa. Decidi que cansei e não quero ser mais eu. Mude já. Mude tudo. Quero andar disfarçado de outra pessoa. Passar desapercebido pelos meus conhecidos. Vou fitá-los de longe, mas para eles não serei mais do que um rosto na multidão. Quero recomeçar. Começar do zenro novamente. Uma segunda chance. Vou fazer diferente. Atar os nós. Não deixar pontas soltas. Essa vida serviu de rascunho. Agora quero passar a limpo.

Sexta

Acordou tão feliz que parecia o último dia de sua vida. Aquela sensação de alívio, de último dia de aula, de último dia no emprego chato, de terminar um namoro quando já se tem um outro amor.

Mas foi só impressão.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Pico de desesperança

Uma pilha de pratos na cozinha e ela espera seu amor passar pela janela com os pés molhados, cabelo na cara, segurando o guarda-chuva. Ela insiste em recolher as peças só para espalhá-las novamente. Livro depressivo em cima da cama porque ela acha bonito chorar. Ele não passa, ela desiste, liga a TV. Se afunda no nada e se distrai vendo o reflexo de seus sonhos em um chão repleto de cacos de vidro. Percebe-se um brilho em seus olhos.
Talvez ela precise dormir.
Talvez ela precise acordar.

sábado, 4 de agosto de 2007

O que leva as mulheres a terem essa beleza toda?
O que as leva ter a leveza de uma pena e o peso de uma lágrima?
São sublimes e perversas. Amantes e algozes.
Sentam-se na penumbra, fumam um cigarro e só te deixam ver as pontas do scarpin.

Te seduzem, te comem, te mastigam e te cospem.
Depois olham de costas, com um sorriso no canto da boca.
Secodem os cabelos, dão adeus.
E não voltam nunca mais.

Seu coração fica arrasado. Sua cabeça explode e suas costas queimam.
Mas você não pára de pensar.
O que essa beleza toda? De onde vem?
A frieza de um sorriso. A color de um afago.

Então, mais uma vez, você se vê apaixonado.
O coração não mente, é de verdade.
É hora de deixar toda a tristeza de lado
e começar tudo de novo.

Do cérebro acorrentado

O que aprisiona a mente?
O que você faz pra se conter dentro de si?
Enquanto o vizinho do seu lado se contorce e inflama.
Você tem mais de mil amarras que te aprisionam.

Ninguém diz o que realmente pensa.
Ninguém fala o que realmente sente.
Sobe no palco, põe a máscara
e acena pra toda a gente.

Ele finge que ama;
ela finge que adora.
E assim caminham juntos,
numa parca sintonia.

A música que toca é a trilha sonora da sua vida.
Mas só se ouve uma nota.
Que se repete, repete, repete muito mais.
E você segue dançando sob o chicote do capataz.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Hoje eu quero sair só

O dia amanhece e ela nem dormiu ainda. Ela se sente engessada. Parece que o coração e as idéias irão atrofiar. Ela ouve Lenine e sente vontade de chorar.

Se você quer me seguir, não é seguro
Você não quer me trancar num quarto escuro
Às vezes parece até que a gente deu um nó
Hoje eu quero sair só

Você não vai me acertar à queima-roupa
Vem cá, me deixa fugir, me beija a boca
Às vezes parece até que a gente deu um nó
Hoje eu quero sair só
Não demora eu tô de volta

Tchau!
Vai ver se eu estou lá na esquina, devo estar
Tchau!
Já deu minha hora e eu não posso ficar
Tchau!
A lua me chama, eu tenho que ir pra rua
Tchau!
A lua me chama, eu tenho que ir pra rua

Premonições de uma quarta à noite

Me traz uma Smirnoff Ice, por favor. Não, a vermelha mesmo, a preta é meio ruim.
Então, quanto tempo, meu rapaz. Nem esperava seu convite.
Ah, meio igual, meio diferente. Abandonei o trabalho. É, é. Cansei da vida de robozinho, nove às seis, não repete a calça, olha o sapato que não combina. Eu definitivamente não nasci para escritórios. E você, como está a peça? Li ótimas resenhas, preciso ver.
Vi que adaptaram o livro do Galera e a mulher dele é protagonista, você viu? Então, preciso ler o livro, preciso ver o filme... Preciso tanta coisa.
Então, também senti saudade, mas estranho você me procurar agora, depois de sei lá quantos meses. Você não é meu amigo. Eu namoro, você também. Somos apenas duas pessoas que se conheceram numa noite junkie e se viram outras poucas vezes, depois da bebedeira.
Seu cabelo cresceu, você está mais bonito. Pois é, o meu também.
Ó, dessa vez nem vem com história de fumar baseado na sua casa que eu não vou aceitar. Estou limpando o chão da cozinha e ele é branco, tem que ficar perfeito. Estou com mania de perfeição. Preciso ajustar tudo a toda hora.
Me leva pra ver sua peça no final de semana? Eu queria muito que sua namorada sumisse por uns dias com o meu namorado para que a gente pudesse ver a mostra latino-americana de cinema no SESC juntos. Eu gosto do jeito que você olha as coisas e queria aprender esse olhar. Você imita a vida daqueles que não a tem. Um dia você vai interpretar os meus textos e sairemos abraçados e bêbados e gargalhando na Praça Roosevelt, falando de amor e dos filmes do Antonioni que deixamos de ver. Coitado do Antonioni. Um minuto de silencio para sua morte.

[10 segundos e soltamos uma gargalhada estridente na noite fria, subindo a Augusta, entre luvas, cachecóis e sonhos]