quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Premonições de uma quarta à noite

Me traz uma Smirnoff Ice, por favor. Não, a vermelha mesmo, a preta é meio ruim.
Então, quanto tempo, meu rapaz. Nem esperava seu convite.
Ah, meio igual, meio diferente. Abandonei o trabalho. É, é. Cansei da vida de robozinho, nove às seis, não repete a calça, olha o sapato que não combina. Eu definitivamente não nasci para escritórios. E você, como está a peça? Li ótimas resenhas, preciso ver.
Vi que adaptaram o livro do Galera e a mulher dele é protagonista, você viu? Então, preciso ler o livro, preciso ver o filme... Preciso tanta coisa.
Então, também senti saudade, mas estranho você me procurar agora, depois de sei lá quantos meses. Você não é meu amigo. Eu namoro, você também. Somos apenas duas pessoas que se conheceram numa noite junkie e se viram outras poucas vezes, depois da bebedeira.
Seu cabelo cresceu, você está mais bonito. Pois é, o meu também.
Ó, dessa vez nem vem com história de fumar baseado na sua casa que eu não vou aceitar. Estou limpando o chão da cozinha e ele é branco, tem que ficar perfeito. Estou com mania de perfeição. Preciso ajustar tudo a toda hora.
Me leva pra ver sua peça no final de semana? Eu queria muito que sua namorada sumisse por uns dias com o meu namorado para que a gente pudesse ver a mostra latino-americana de cinema no SESC juntos. Eu gosto do jeito que você olha as coisas e queria aprender esse olhar. Você imita a vida daqueles que não a tem. Um dia você vai interpretar os meus textos e sairemos abraçados e bêbados e gargalhando na Praça Roosevelt, falando de amor e dos filmes do Antonioni que deixamos de ver. Coitado do Antonioni. Um minuto de silencio para sua morte.

[10 segundos e soltamos uma gargalhada estridente na noite fria, subindo a Augusta, entre luvas, cachecóis e sonhos]

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