sexta-feira, 22 de junho de 2007
Nos olhos do touro
Estamos parados. E parados nos fitamos. Analiso cada centímetro daquele imenso animal. Daqui, de perto, ele é muito mais bonito. Caminha majestoso, enquanto bufa pavor e ódio. Estamos cansados, porém, o instinto de sobrevivência fala mais alto. Nos observamos e estudamos cada movimento. Calculamos cada centímetro. Cada músculo se move milimetricamente, segundo nossos comandos. Feixes disparando feixes, do cérebro à carne. Alimentamos admiração e raiva, um do outro. E, em ambos os casos, uma raiva que nos foi imposta. Nenhum de nós sabe direito o que está fazendo ali. Apenas sabe-se que há muito é assim. Então, damos água a esta semente ruim que vai germinar. Sentimos a ira crescer dentro de nós, até o ponto onde não se pode aguentar. Então, num rugido sincronizado, partimos um em direção ao outro. Fecho os olhos. Estou acordado. E dormindo. Estou e sou ao mesmo tempo. Abro os olhos. Meu negro amigo caninha a meu lado. Não se sabe há quanto tempo. Apenas sabe-se que há muito é assim.
Pássaros
Um dia alguém que carregava um sonho, pesado demais para si só, deixou-o cair no chão. Tal qual espelho, partiu em mil pedacinhos. Foi então, no exato instante de tocar o chão, que cada pedaço ganhou cor própria e virou um pássaro, explodindo em intensa revoada. As pessoas ao redor se espantaram, e tentaram acompanhar o vôo de cada um. Alguns foram em direção ao pôr-do-sol, outros pousaram nas cabeças das pessoas que passavam e outros tantos entraram nas janelas que estavam abertas. Alguns tentaram entrar nas janelas fechadas, mas nessas geralmente se cultiva ratos, que não são uma boa companhia pra uma ave colorida. Ao entrarem nas casas, logo acharam um prego desavisado na parede, ou um móvel de canto, onde se estabeleceram e fizeram ninho. Assim, mais uma vez se transmutaram e novamente se fizeram espelho. Um espelho especial, que refletia nas suas imagens um pedaço daquele primeiro sonho pesado, que agora era leve e carregado por muitos.
Tempo
Se, neste nosso planetinha, Gaia é a mãe de tudo, com certeza O Tempo é o pai. Um pai que é severo, mas também alivia a barra. Aquele que condena e também salva. E em todos os seus aspectos, o tempo varia entre o bem e o mal. Ele te ajuda a esquecer. E te ajuda a esquecer. Ele alivia as feridas, mas também consolida a mágoa. E mesmo quando é linha, faz-se duplo; como quando a pessoa nasce e vai ficando mais velha, até chegar à idade adulta, sempre progredindo para o auge. Porém, em um segundo você dobra a esquina e vêm a decadência da carne. Dois. O tempo é um e é dois. Se você está no meio, ele corre metade pra cada lado. Se você está correndo atrás dele, ele também está correndo atrás de você. E no fim, sempre alcança. Alcança a tudo e há todos. Não há mal que não desfaça. Mesmo que sendo apagando da memória. Nada escapa dele.
terça-feira, 19 de junho de 2007
Coração de papel
Ela gostava de Sérgio Reis e sentia frio na barriga só de pensar que o veria depois de tanto tempo. "Não há nada de novo, ainda somos iguais", pensava ela como o moço que quase morreu depois de tantas letras lindas. Deus não mata quem faz letras lindas porque, veja bem, matar poetas não é de Deus.
Vestido de bolinha, penteado anos dourados, óculos escuros.
Ela chega. Ela o vê. Borboletas por toda parte. Ela sorri e se alegra e se encanta e ele se aproxima. Borboletas por toda parte. Eles se abraçam e o mundo todo cabe ali dentro, porque o mundo inteiro se reduz a momentos como esse. Pequenas grandezas da vida. Eles estão felizes. Eles cabem dentro do mesmo abraço e se aquecem um do outro da ternura de saber que existem juntos naquele momento. Dois sóis em um planeta de ternura. Porque o abraço é um planeta de ternura. Cabe tanta coisa dentro.
O tanto, quando muito, aquece. O tanto, quando pouco, sangra.
É noite e eles são sóis. Sós.
Vestido de bolinha, penteado anos dourados, óculos escuros.
Ela chega. Ela o vê. Borboletas por toda parte. Ela sorri e se alegra e se encanta e ele se aproxima. Borboletas por toda parte. Eles se abraçam e o mundo todo cabe ali dentro, porque o mundo inteiro se reduz a momentos como esse. Pequenas grandezas da vida. Eles estão felizes. Eles cabem dentro do mesmo abraço e se aquecem um do outro da ternura de saber que existem juntos naquele momento. Dois sóis em um planeta de ternura. Porque o abraço é um planeta de ternura. Cabe tanta coisa dentro.
O tanto, quando muito, aquece. O tanto, quando pouco, sangra.
É noite e eles são sóis. Sós.
A menina que odiava calendários
Fui buiscar no aeroporto.
Sim, tinha que ser aeroporto, que é chique e a cara dela.
Cheguei no aeroporto às 19h . O vôo tava marcado pras 19:30, mas no placar do aeroporto, aquele com aquelas letras que rodam, me deizia: "atrasado". Bem, o que fazer? Revistam. Quadrinhos, pra não perder o costume. A chiclete com banana hyavia voltado e eu estava a fim de ler. Comprei, sentei e li. Reli. E li mais uma vez. Então
O vôo confirmado pras 22:15. Calculei pelo horário que você chegaria umas 15 pras 11. Exatamente ás 23:47 você apareceu no portãozinho. De vestido de bolinhas, acenou com um lencinho. Eu corri entre a multidão. Você também. Paramos, nos entreolhamos e você deixou as malas caírem no chão.
Nos abraçamos. Eeeeeeeee!! E ponto. Foi isso. Aí então tudo congelou. Me senti entrando num filme, onde a câmera girava a nosso redor. Juro que conseguia ouvir, ao fundo, a musiquinha da Amélie Poulain. Até hoje não sei se vinha da loja de cds, ou era coisa da minha cabeça, mas, enfim... Lágrimas e carinhos depois, só então reparei que você estava de óculos escuros. Dei um risinho...você continuava sem noção. Pego suas malas e vamos ao estacionamento. Antes de eu partir com o carro, você me pergunta aonde vamos. Não sei. Até então não havia parado pra pensar nisso...e essa era a graça toda.
Sim, tinha que ser aeroporto, que é chique e a cara dela.
Cheguei no aeroporto às 19h . O vôo tava marcado pras 19:30, mas no placar do aeroporto, aquele com aquelas letras que rodam, me deizia: "atrasado". Bem, o que fazer? Revistam. Quadrinhos, pra não perder o costume. A chiclete com banana hyavia voltado e eu estava a fim de ler. Comprei, sentei e li. Reli. E li mais uma vez. Então
O vôo confirmado pras 22:15. Calculei pelo horário que você chegaria umas 15 pras 11. Exatamente ás 23:47 você apareceu no portãozinho. De vestido de bolinhas, acenou com um lencinho. Eu corri entre a multidão. Você também. Paramos, nos entreolhamos e você deixou as malas caírem no chão.
Nos abraçamos. Eeeeeeeee!! E ponto. Foi isso. Aí então tudo congelou. Me senti entrando num filme, onde a câmera girava a nosso redor. Juro que conseguia ouvir, ao fundo, a musiquinha da Amélie Poulain. Até hoje não sei se vinha da loja de cds, ou era coisa da minha cabeça, mas, enfim... Lágrimas e carinhos depois, só então reparei que você estava de óculos escuros. Dei um risinho...você continuava sem noção. Pego suas malas e vamos ao estacionamento. Antes de eu partir com o carro, você me pergunta aonde vamos. Não sei. Até então não havia parado pra pensar nisso...e essa era a graça toda.
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Sobre
Sinto a explosão dos seus, quando me transformo Deus.
Quando me transformo em nada.
Quando te bebo, quando te esqueço.
Quando sou pó no deserto.
Quando sou só no deserto.
Te cheiro pó. Te vejo só.
No deserto.
Quando me transformo em nada.
Quando te bebo, quando te esqueço.
Quando sou pó no deserto.
Quando sou só no deserto.
Te cheiro pó. Te vejo só.
No deserto.
Apresentando Thiago
E aí que eu e o Thiago resolvemos escrever em parceria porque a gente já faz tanto disso no dia-a-dia e às vezes é tão bonito que dá vontade de mostrar para outras pessoas. Exibidos. Bêbados. Sonhadores. Decadentes.
O Thiago é, disparado, a pessoa que mais compartilha das minhas filosofias de boteco. Entende e acrescenta, com seu sotaque e bigodinho, novos conceitos sobre sonhos, vida, sociedade e vadiagens em geral.
Senhoras e senhores, com vocês, Thiago Carvalho.
O Thiago é, disparado, a pessoa que mais compartilha das minhas filosofias de boteco. Entende e acrescenta, com seu sotaque e bigodinho, novos conceitos sobre sonhos, vida, sociedade e vadiagens em geral.
Senhoras e senhores, com vocês, Thiago Carvalho.
Apresentando Daia
Um dia apareceu uma borboleta. Mas ela nunca havia sido uma lagarta, tampouco crisálida. Não tinha passado meses comendo folhas amargas e nem outros tantos apertada num casulo. Essa borboleta veio de outro lugar. Um lugar que não se entende muito bem como é e nem onde fica. Apenas sabe-se que lá as borboletas já nascem coloridas, se alimentam de sonho, passam tempos voando por campos verdinhos, sob a luz do sol de começo de inverno, até que resolvem voar pelo espaço e pelas dimensões. Foi assim que ela veio até aqui. Voando pelo espaço, pelas galáxias e pelas vidas. Foi assim que ela chegou até mim. Pousou no meu dedo e me disse: "Oi, sou a Daia. Sou uma borboleta." Então eu abri a porta do meu peito e dei um espaço no meu coração, pra ela se abrigar nos dias de chuva.
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