quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Quando uma árvore cai no meio da floresta e não há ninguém para ouvir, será que ela faz barulho? De maneira análoga, se alguém tem um sentimento, mas não há ninguém para recebê-lo, então, o que é feito...?

Agora queria aquela pessoa que me escutasse. Mas não com os ouvidos, porque dentro de mim cai uma árvore no meio da floresta de sentimentos. Preciso de alguém que ouça tudo o que eu tenho a dizer sem que eu precise falar uma palavra sequer. E assim, de boca fechada e coração aberto, em uma revoada de considerações, pensamentos doces e doloridos voam como o balão que escapou da mão da criança que brincava no parque. E pra cada um que estoura, ao receber uma rajada de ar mais forte, ou encostar num galho sorrateiro, uma explosão de bolhas coloridas. E pra cada bolha, mais bolhas. E pra cada cor, mais cores, até o céu virar arco-íris.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Coração errado

Eu queria pegar o que eu sinto, amarrar num saco rosa, fazer um enfeite bonito no laço e jogar na água corrente, pra ver se passa. Mas eu não consigo. Seu sorriso ficou impregnado e toda vez que eu me lembro dele me dá vontade de te ter. Só um pouquinho. Só por perto. Só aqui do lado, falando coisas que não vou me lembrar, porque eu fico prestando atenção nos seus olhos. No seu jeito. No jeito que você gesticula bonitinho com as mãos. Meu amor impossível. Proibido pelos deuses. Meu maior castigo. Não posso te pedir pro Papai Noel. Não te mereço. Você nem imagina. Ta brilhando bonito no meio do caos, pedindo ajuda. Ergo a mão e você não vê. Vê o que quer. Escolhe o impossível. Parece comigo e deve ser isso que eu amo. Sua utopia louca de estar aqui no mundo, existindo e desistindo de você mesmo. Lindo. Importante demais. Ilumina o céu e não vê. Garoto rico perdido pedindo dinheiro em farol. Esqueceu de tudo. Da alma, da cor. Não tenho o que fazer. Eu espero. Eu já me acostumei. Eu, inclusive, já me acostumei a não ter você. A não ter o seu sorriso. Eu realmente não me importo. Eu te amo complicado, chorando no vale perdido. Eu vou te salvar. Olha aqui. Eu aceno, mas você olha sempre pro lado errado da rua. Do abismo. Da vida. Eu te amo. Eu só vim te buscar. É só por isso que eu estou aqui.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O espaço é o caminho formado
Pela ausência de cada pedaço
Que compõe o meu sofrer

É não ter o propósito claro
Que me faça em um dia errado
Gentilmente escarnecer

Encho a cara
Bato no peito
Digo: vida, aí vou eu!

Dou licença
Peço o direito
E o que ninguém escolheu

Se não existo mais
Por que todos insistem em lembrar de mim?

O cheiro que o vento traz
Me faz esquecer do tempero ruim

Quatro artérias artificiais
Levam à cabeça mais desejos banais
De toda a nossa condição
De um mero humano padrão

Pensa tudo o que existe
Destrói e não desiste
Leva o Inverno à Primavera
E se traveste de quimera

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Um pensamento

As bailarinas devem ser felizes brilhando vez ou outra por aí.

Dogma

Sabe quando você aperta o botão mil vezes e nada acontece? Dá vontade de chorar, dá vontade de morrer, dá vontade de esquecer.

Gente jovem reunida

Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Testemunho (a)(in)cidental

Do alto de uma janela, de olhos fechados, um menino recebe no rosto a brisa fresca de um fim de tarde a mais. Ele sabe que o futuro chega logo. Ele sabe que ela não vem e que ela ainda está por vir. Será que demora muito? O logo quase sempre é quase nunca.

domingo, 14 de outubro de 2007

Entreouvido pelo rádio...

"Cantar é se vestir com a voz que se tem..."

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Às vezes tenho a impressão de que o mundo está só esperando eu chegar. Mas onde estou que não chego nunca...?

domingo, 7 de outubro de 2007

brincadeira

Vou sangrar o coração
que é pra verter a emoção
que de dia me faz cantar

Se planto flores em qualquer jardim
também as tenho em mim
E tantos beijos pra voar

Então ouço uma voz
e devagar ela me conduz
pra um outro lugar

Agora sei
que canto sem razão
Mas a fumação no pulmão
Me impede de pensar

Pelo dia que encontra seu fim
dou a volta em um segundo
mais um suspiro bem fundo
prendo e solto o ar

Esse cara

Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
E eu estou pro que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada ele some
Ele é quem quer
Ele é um homem
E e eu sou apenas uma mulher

Caetano Veloso, mas fica linda na voz de Cazuza

Amor é coisa de boteco

O amor encontra sua dignidade na vergonha. Envergonhar-se de um amor é ter orgulho dele.
Choro por um amor. Despedaço-me por um amor. Fragmento-me por um amor. Faço chantagem por um amor. Digo o que não devo por amor. Estrago uma festa por amor.
Amor desesperado é ainda o jeito mais tranqüilo de amar. Não conheço outra paz senão a de guerrear no fundo de um copo.
Não sou homem de tranqüilizantes, de remédios na cômoda, de sono induzido. Meu quarto é o bar, público e derradeiro. Meu travesseiro é uma toalha de mesa plastificada. Amor só sabe gemer falando alto.
O amor é aguardar uma resposta. A fossa é o período de uma resposta a outra. Não há como amar sem prejuízo. Sem acreditar que não deu certo. É inacreditável como apaixonados contam as mais absurdas inconfidências a estranhos e escondem os detalhes dos mais próximos. Todo garçom já foi nosso padre um dia. Nosso confessor. A gravata-borboleta é nossa batina.
Amor é esse estágio necessário de loucura para suportar a normalidade. Quando amo, não preciso de psiquiatra, preciso de um táxi para voltar.
Amor mesmo é coisa de boteco, com potes de ovinhos de codorna e cachaça nas prateleiras. Amor não tem nojo, repulsa, pudor de sofrer. Sofremos de amor para abrir espaço por dentro e desalojar antigos moradores.
Amor não é próprio de restaurante ou de guardanapo nos joelhos. Não haverá um porteiro saudando com "boa-noite", não haverá recepção ou um senhor para abrir a porta. Aliás, não terá porta, é uma garagem para o corpo balançar à vontade e não quebrar nada.
Não espere cardápio no amor, espere cartazes nas paredes. As lâmpadas estarão com as braguilhas abertas no teto.
Amor mesmo é devasso, cafona, cadeira de metal amarela, dobrável e enferrujada. Deve-se tomar cuidado para não sentar na ponta.
O amor não vem da elegância de um lugar, vem da nobreza da dor.
O amor é o solitário do balcão, a retirar vagaroso o rótulo úmido da garrafa porque não pode despir sua mulher. Fica delirando em braile. Aprende inglês com as moscas. Joga dama com os cascos. Reza dez ave-marias para cada pai-nosso. Descobre que o terço é feminista. A cada vez que pensa em si, pensa dez vezes no corpo dela.
Não se limpa um amor no banheiro. Limpa-se com as mangas da camisa na frente de todos. O amor é a boca assoando.
O amor não pede a conta na mesa, é a conta. Não há amor se você não for o último cliente. O último a sair é que está realmente amando.
Quem ama não guarda o dinheiro na carteira, deixa avulso e amassado no bolso. É sintomático. Estará cantando Amado Batista sem querer. E se espantará que conhece a letra, egressa de alguma estação da infância.
Só pode ser do radinho materno, ao lado do fogão. Sua mãe colocou aquelas canções em sua comida.

Fabrício Carpinejar

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

De volta a 2006

...e quando eu venho, é na melhor das intenções. Sempre foi, você não sabe. Você não viu.
Mas eu fiz um bom trabalho jogando cinzas e areia nos seus olhos e no seu coração. Nunca foi minha intenção. Você não sabe.
Mas eu fiz um bom trabalho jogando terra e entulho dentro de mim mesmo. E isso eu sei, você não sabe.
Fui eu quem ágüou o solo pra que hoje floresça o seu roseiral.
E serão rosas lindas e boas pra você, pois foram regadas com lágrimas. Minhas e suas.
Isso você sabe. Mas isso, ninguém mais sabe.


Versão Daia
E quando eu venho, é na melhor das intenções. Sempre foi, mas você não sabe.
Você não viu. Eu fiz um bom trabalho jogando cinzas e areia nos seus olhos e no seu coração.
Acho que foi minha intenção. Mas você não sabe. Eu fiz um bom trabalho jogando terra e entulho dentro de mim mesmo.
E isso eu sei, mas você não sabe.