Estava andando no Centro da Cidade, como fazia às vezes, meio preocupado e sonolento, após o almoço de cada dia. Imaginava que as pessoas sempre seguem uma rotina, até nos pequenos atos do dia-a-dia. Quando se observa muito tempo pode-se prever até o lado pro qual elas se desviam, para evitar esbarrarem umas nas outras, o que seria como uma peça que range numa estrutura bem organizada. Entrar em contato físico com um outro alguém desconhecido é algo incabível. Pior ainda: a idéia de tocar um olhar alheio no meio de tantos é de apavorar qualquer transeunte. O que aqueles olhos poderiam dizer? Imagine se neles encontrarem as respostas de perguntas que nem conhecem ainda? Um horror!
Frequentemente tinha a impressão de que até as rotas escolhidas pelas calçadas eram as mesmas. Foi em meio ao relógio adiantado da cidade que reparou um prédio que, até ontem, parecia nunca ter estado ali. Mas agora se punha no meio dos arranha-céus como se fosse parte da paisagem. Será que ninguém notava? Todos passavam, indiferentes. Como não haviam reparado que agora jazia entre dois prédios comerciais uma torre. Sim, daquelas torres medievais, sem portas embaixo, tampouco escadaria. Apenas uma janelinha solitária lá no alto.
Passou então a parar na sua frente, todo dia, para admirar a mais nova descoberta. Era uma torre bem bonita, apesar de aparentar bastante idade. Idade suficiente para estar ali desde muito antes de haver alguém ali.
Era uma sexta-feira preguiçosa. O horário do almoço marcava a metade do tempo restante para a liberdade controlada do fim de semana. Foi quando a viu pela primeira vez. Passava os olhos corriqueiramente pela janelinha de pedra quando reparou que havia algo diferente. Uma figura lançava seus olhares ao infinito, na direção do sol e do mar. Os cabelos - negros, às vezes vermelhos - revoavam e alguns fios acariciavam seu rosto, fazendo o nariz coçar. A pele era alva, roseando nos lábios. Os olhos eram a noite em forma de pérolas.
Ficou congelado. Petrificado por fora. Por dentro, era o carnaval de turbilhões. Calor e frio atingiam seu corpo. Não sabia explicar, mas parecia ter engolido um redemoinho. Sentia uma pontada tenra no peito. Sabia que precisava falar a esta moça, mas não tinha idéia de como. Pensou em pedir para que jogasse suas tranças, mas, além de ter certeza de que não o ouviria por causa do barulho dos carros, tinha o cabelo curto.
Neste momento um raio pareceu tê-lo atingido. Foi tomado por algo tão grande e avassalador, que mal podia ficar de pé. Se encolheu, para tentar recuperar o fôlego, e passou a sentir um formigamento nas costas. Mal esticou o braço para ver o que era e, num estrondo que só se ouviu em seus ouvidos, duas imensas asas brotaram de suas costas. Eram branquíssimas como as nuvens de manhã de inverno, e macias e quentes.
Quando deu por si, já havia decolado e estava em disparada em direção àquela janelinha, que parecia prometer-lhe tudo. Por alguns segundos, que pareceram séculos, sentiu a brisa suave tocando sua face e anunciando tudo de bom. Ao atingir a altura da janela, fitou-a por um momento e pousou no parapeito.
Então, antes que ele pudesse abrir a boca, ela disse: -"Me leva."
E foram embora. Voando.
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